Como foi ter uma gravidez ectópica (fora do útero)

Em fevereiro de 2025, durante a Quaresma, eu estava na academia fazendo um exercício chamado stiff quando, ao me abaixar, percebi algo estranho

Meus seios estavam gigantes.

Tipo… dois melões. 😂

Não era exatamente algo extraordinário para a maioria das mulheres, mas, no meu caso, era. Tenho seios muito pequenos — praticamente despeitada — então qualquer volume a mais já faz uma diferença enorme.

Achei estranho, mas segui a vida. Afinal, eu estava perto de menstruar.

Até que, alguns dias depois, aconteceu outra coisa estranha.

Eu estava trabalhando quando tive uma espécie de mini apagão. Minha visão escureceu por uma fração de segundo e voltou ao normal. Foi tão rápido que talvez outra pessoa nem desse importância, mas aquilo me deixou intrigada.

Resolvi abrir o aplicativo Maia, onde acompanho meu ciclo menstrual.

Dois dias de atraso.

Foi aí que pensei: “Bom… vou fazer um teste, só por desencargo de consciência.”

E lá estava ele.

Positivo.

Teste positivo. Fonte: arquivo pessoal.

“Meu Deus. Eu estou grávida.”

Fiquei em choque.

Eu não estava tentando engravidar. Na verdade, nunca tinha usado um método contraceptivo de fato. Fazia uma “tabelinha” meia-boca e achava que estava tudo sob controle.

Não estava.

Naquele instante, minha cabeça planejadora começou a funcionar a mil por hora.

Eu não me considero uma pessoa ansiosa, mas foi um verdadeiro bombardeio de pensamentos. Nunca tinha conseguido pensar em tantas coisas diferentes em tão pouco tempo.

Como seria minha vida?

E o trabalho?

E o dinheiro?

E a casa?

E o parto?

E… meu Deus, eu seria mãe?

Eu não conseguia guardar aquilo dentro de mim.

Precisava contar para o meu marido.

Mas como?

Queria fazer alguma coisa especial. Sou péssima com surpresas, então fiz o que veio mais rápido à minha cabeça.

Saí do trabalho, fui a um laboratório e fiz um beta-hCG quantitativo.

Resultado: 540 mUI/mL.

Gravidíssima, né, mores?

Depois corri para o shopping, comprei uma caixa bonita e um body de bebê neutro que encontrei. Escrevi uma cartinha com algo mais ou menos assim:

“Me espere, papai, pois estou chegando!”

Muito fofo vindo de mim, uma verdadeira porteira.

Quando meu marido chegou em casa, entreguei a caixinha.

Mal sabia eu que aquela pequena caixa seria o início de uma das experiências mais dolorosas da minha vida.

Caixa para papai. Fonte: arquivo pessoal.

O primeiro ultrassom

Dois dias depois, eu já estava na médica iniciando o pré-natal.

Não sei se ela me instruiu corretamente ou se eu estava tão afoita que não prestei a atenção necessária, mas, no dia seguinte, lá estava eu fazendo um ultrassom.

Detalhe importante:

Eu tinha apenas quatro semanas de gestação.

Cheguei ao exame toda animada.

Até que me colocaram naquela situação extremamente desconfortável, com um aparelho que parecia enorme, mexendo para lá e para cá.

Depois de algum tempo, veio a pergunta:

— Sua médica mandou você fazer esse exame com apenas quatro semanas?

Eu não sabia nem o que responder.

— Sim…

Então ele explicou que, tão no início, o embrião ainda era pequeno demais e que poderia não ser possível visualizá-lo.

Tudo bem.

Eu só queria boas notícias.

Depois de mais algumas remexidas doloridas, veio a frase que eu não esperava ouvir:

— Não tem nada no seu útero. Está vazio.

Como assim?

Não tinha nada?

Mas eu estava grávida.

O teste tinha dado positivo. O beta-hCG tinha dado positivo. Eu tinha sintomas.

Como poderia não haver nada?

A explicação era que talvez ainda fosse cedo demais. A orientação foi repetir o beta-hCG quantitativo e acompanhar sua evolução.

Saí dali devastada.

E preocupada.

Fui direto para o laboratório.


O beta não estava evoluindo como deveria

No mesmo dia recebi o resultado.

O beta havia aumentado, mas apenas cerca de 10%.

Não tinha dobrado.

“Tudo bem”, pensei.

Talvez o bebê fosse preguiçoso como a mãe.

Vamos esperar.

Dois dias depois, fiz outro exame.

Dessa vez, o beta havia caído cerca de 30%.

Meu coração despencou junto.

O bebê estava morrendo?

Como assim?

Ele mal tinha chegado e já estava indo embora?

Pouco depois comecei a sangrar muito e a sentir fortes dores.

O medo começou a crescer dentro de mim.

Voltei à médica — depois de quase surtar tentando conseguir uma vaga — e ouvi aquilo que eu mais temia:

“Você provavelmente está passando por um aborto espontâneo.”

Eu não queria acreditar.

Como boa engenheira que sou, fiz o que qualquer engenheira faria diante de um problema aparentemente insolúvel:

Pesquisei.

Pesquisei até a página 50 do Google.

Assisti a horas e horas de vídeos no YouTube.

Li tudo o que consegui encontrar.

E cheguei à minha própria conclusão:

Eu precisava salvar aquele bebê.

Na minha cabeça, a solução era progesterona.

Conversei com a médica. Ela tentou me explicar a situação, mas eu insisti.

“Se não vai me fazer mal, eu quero tomar. Quero saber que fiz tudo o que podia.”

Comecei a usar a progesterona.

Mas o sangramento continuava.

E as dores também.


“É uma gravidez ectópica”

A situação ficou tão séria que precisei ir ao hospital.

E aqui aconteceu uma situação que, olhando para trás, chega a ser quase surreal.

Uma médica que aparentava ser mais nova do que eu estava literalmente consultando o ChatGPT durante o atendimento.

Pensei:

“Poxa vida… isso eu poderia fazer em casa, né?”

Enfim.

Fiz um novo ultrassom e um novo beta-hCG.

Depois, outro médico me examinou com um pouco mais de calma e humanidade.

E então veio a notícia que eu mais temia.

Não era simplesmente um aborto espontâneo.

Era uma gravidez ectópica.

O embrião estava se desenvolvendo fora do útero, especificamente na minha trompa direita.

Foi naquele momento que eu entendi que não havia mais uma escolha entre “salvar o bebê” ou “esperar”.

Era uma questão de vida.

Ou ele, ou eu.

Um bebê não consegue se desenvolver dentro de uma trompa. E, se a gestação continuasse, havia risco grave para mim.

Foi doloroso aceitar.

Porque, até aquele momento, eu estava lutando para manter aquela vida.

Agora precisava aceitar que a própria continuidade daquela gestação poderia me matar.


Quando precisei aceitar

O médico explicou que, no meu caso, tudo indicava que meu próprio corpo conseguiria expulsar o embrião e que talvez eu não precisasse passar por um procedimento.

Em alguns casos, pode ser necessário realizar uma intervenção para retirar o tecido da gestação. No meu caso, felizmente, não foi necessário.

Então eu apenas acompanhei.

Beta após beta.

Número após número.

E vi aqueles valores diminuindo.

A vida que havia começado tão silenciosamente dentro de mim estava desaparecendo com a mesma rapidez.

Aquilo que havia sido uma das maiores surpresas e alegrias da minha vida havia se transformado na minha maior tristeza.

Até que, finalmente, o beta zerou.

E eu fiquei com uma saudade enorme de alguém que eu nem sequer tive a oportunidade de conhecer.

Não ouvi seus batimentos.

Não vi seu rosto.

Não senti seus chutinhos.

Não escolhi seu nome.

Não segurei seu pequeno corpo nos braços.

Mas ele esteve aqui.

Por pouco tempo.

E me ensinou algo que eu demoraria muito mais para compreender sozinha:

A vida é agora.


O que essa experiência mudou em mim

Durante muito tempo eu estava tão ocupada construindo uma vida que, olhando para trás, percebo que havia deixado de pensar no tipo de vida que realmente queria construir.

  • Trabalho.
  • Metas.
  • Responsabilidades
  • Dinheiro.
  • Planos.

E, no meio de tudo isso, eu tinha esquecido de um desejo que estava dentro de mim.

O desejo de construir uma família.

Aquela experiência me fez olhar para a maternidade de uma maneira completamente diferente.

Não porque eu tenha passado a acreditar que precisava engravidar imediatamente.

Mas porque percebi que eu queria estar aberta à possibilidade de ser mãe.

Depois daquele episódio, decidi cuidar melhor da minha saúde e me preparar para, quando fosse o momento, tentar novamente.

A vida também mudou muito desde então.

Mudei de país, reorganizei minha vida, passei por novas experiências e, por um tempo, a gravidez sequer era uma tentativa concreta.

Hoje, mais de um ano depois daquela gestação, ainda não engravidei novamente — embora esteja tentando de fato há apenas alguns meses.

E, sinceramente?

Eu não sei quando vai acontecer.

Não sei se será amanhã, daqui a alguns meses ou mais adiante.

Mas existe dentro de mim uma convicção tranquila de que a minha história não terminou naquele beta que chegou a zero.

Aquele pequeno bebê não ficou comigo.

Mas deixou algo.

Deixou uma mudança de direção.

Deixou um desejo que eu não quero mais ignorar.

E deixou em mim uma certeza:

não quero passar pela vida tão ocupada em construir o futuro a ponto de esquecer de viver o presente.

Talvez essa tenha sido a maior lição que ele poderia me dar.

Hoje continuo esperando.

Com esperança, mas também com os pés no chão.

E acredito que, quando chegar a minha hora, eu finalmente segurarei nos braços aquele pequeno pacote de amor que um dia comecei a imaginar.

Não apenas dentro do meu útero.

Mas nos meus braços.

Com amor, Jenni.